Iniciativa Negra

Territórios em Disputa: Racismo Ambiental, Política de Drogas e Resistência Comunitária

Artigo
31/07/25
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Em um artigo especial para a Iniciativa Negra, a assessora de advocacy Larissa Neves discute a conexão entre os temas do racismo ambiental e da guerra às drogas, a partir da experiência do “Toxic Tour” – um projeto realizado pela comunidade do Quilombo Bananeiras, em Ilha de Maré, para denunciar a poluição provocada pelos grandes empreendimentos na Baía de Todos os Santos. A autora dialoga com os temas da revista PLATÔ Intersecção, que explora as conexões entre uso da terra, política de drogas, e justiça climática. A revista foi lançada na cidade de Salvador recentemente, e o Toxic Tour foi uma das atividades da programação do lançamento.

Confira o artigo completo a seguir.

1. Quando o território é alvo

A guerra às drogas e os impactos da degradação ambiental não se manifestam de forma isolada em comunidades negras e periféricas. Esses fenômenos, embora tratados em esferas distintas de políticas públicas, convergem em seus alvos e em suas consequências: os territórios historicamente racializados, ocupados majoritariamente por populações negras, tornam-se palco de uma política de morte, que opera por meio da criminalização, da contaminação e da negação de direitos.

A Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas, por meio da Revista Platô, uma revista da Plataforma Brasileira de Política sobre Drogas, tem denunciado essa interseção entre racismo estrutural e políticas proibicionistas, questionando os paradigmas que sustentam a guerra às drogas como ferramenta de controle social. Essa crítica se alinha diretamente às denúncias feitas pela comunidade de Ilha de Maré, em Salvador (BA), onde o Toxic Tour transforma o território contaminado em espaço de denúncia viva contra o racismo ambiental. Ao colocar essas experiências em diálogo, compreendemos que as lutas antiproibicionistas e ambientais compartilham não apenas os mesmos inimigos, mas também os mesmos fundamentos: a resistência negra e comunitária frente ao Estado punitivo.

2. A origem do termo “racismo ambiental” e sua ressignificação no Brasil

O conceito de racismo ambiental surgiu nos Estados Unidos na década de 1980, cunhado por Benjamín Chavis, ativista do movimento negro e defensor dos direitos civis. Chavis observou que comunidades afro-americanas eram desproporcionalmente expostas a resíduos tóxicos e poluição. A partir dessa constatação, ele definiu o racismo ambiental como a imposição desproporcional de cargas ambientais a grupos racialmente marginalizados – um fenômeno que não era acidental, mas sistemático.

No Brasil, o termo foi ressignificado por movimentos sociais, quilombolas e ambientalistas negros, ganhando novas camadas de sentido. Aqui, o racismo ambiental é inseparável da história de colonização, escravidão e exclusão territorial. Em comunidades como Ilha de Maré, ele se manifesta não apenas pela poluição industrial, mas também pela privação de saneamento básico, acesso à água potável, terra segura e políticas públicas de saúde. A noção de racismo ambiental, portanto, serve como ferramenta teórica e política para denunciar como o modelo de desenvolvimento econômico brasileiro sacrifica vidas negras e tradicionais em nome do progresso, frequentemente medido por portos, mineradoras, pólos petroquímicos e agronegócio, mas também através da negação dos direitos básicos a comunidades racializadas.

3. Corpos negros como alvos: entre a criminalização e a contaminção

A política de drogas no Brasil, sob a justificativa de combate ao tráfico, tem historicamente se voltado contra corpos e territórios negros. Conforme analisado em diversas edições da Revista Platô, a seletividade penal e o policiamento ostensivo se concentram nas periferias urbanas e nos espaços onde vivem populações racializadas. Não é coincidência, mas projeto: a guerra às drogas atua como mecanismo de continuidade do racismo estrutural, criminalizando não apenas substâncias, mas pessoas e territórios. Afinal de contas, em uma operação policial, ninguém vê a polícia atirando no quilo de cocaína, mas sim no que eles chamam de “suspeito”. Essa criminalização se reflete em altas taxas de encarceramento de jovens negros e em operações policiais violentas que tratam comunidades inteiras como zonas de guerra.

De forma semelhante, o racismo ambiental também enxerga os corpos negros como alvo, meramente descartáveis. A comunidade de Ilha de Maré convive há décadas com os impactos das atividades industriais e petroquímicas na Baía de Todos os Santos, enfrentando a contaminação da água, do solo e do ar. Assim como na política de drogas, o Estado não apenas se omite, mas legitima essas violências ao favorecer grandes empreendimentos em detrimento da vida quilombola. O racismo ambiental funciona como uma forma de controle e extermínio, não com armas, mas com a poluição, o adoecimento e a desassistência.

Essa sobreposição, da criminalização pela política de drogas e da destruição via contaminação ambiental, revela que o projeto de Estado é, de fato, um projeto de exclusão racial e territorial. Tanto nas favelas urbanas quanto nas comunidades tradicionais, como Ilha de Maré, a lógica é a mesma: manter as populações negras afastadas dos direitos à terra, à saúde e à dignidade, submetendo-as a um ciclo contínuo de violência e marginalização.

4. Territórios de resistência: saberes negros e denúncia comunitária

Diante da omissão sistemática do Estado e da imposição de políticas de controle, comunidades negras têm forjado estratégias de resistência que articulam saberes ancestrais, denúncia política e práticas pedagógicas de base. Em Ilha de Maré, o Toxic Tour emerge como uma dessas estratégias. Mais do que uma visita guiada por pontos de contaminação ambiental, o tour é uma performance de denúncia, que transforma a dor e o silenciamento em ação coletiva. Conduzido por moradoras e lideranças locais, o trajeto revela a degradação provocada por empresas como a Braskem e o Porto de Aratu, mas também narra histórias de luta, ancestralidade e sobrevivência.

Nesse sentido, o território deixa de ser apenas espaço geográfico e passa a ser lugar de memória, resistência e disputa simbólica. O Toxic Tour ensina que os caminhos percorridos diariamente por pescadoras e pescadores artesanais são também caminhos de luta, e que cada ponto poluído do mapa é também uma marca da violência colonial que persiste sob novas formas. Essa pedagogia territorializada recusa a neutralidade dos discursos técnicos e expõe o caráter político das decisões que determinam quem pode viver plenamente e quem deve morrer lentamente, sufocado pelo gás tóxico ou pelo encarceramento em massa.

Através do olhar e da escuta das comunidades, práticas como o Toxic Tour desconstroem o mito da neutralidade do progresso e denunciam que, para as populações negras, esse progresso frequentemente se manifesta como extermínio. A mesma lógica vale para a política de drogas, que em nome da ordem pública, destrói lares, encarcera juventudes e militariza a pobreza.

5. Política de drogas e racismo ambiental: duas faces do mesmo projeto

A política de drogas e o racismo ambiental não são apenas paralelos, são complementares. Ambos operam dentro de um mesmo regime de governo que seleciona quem merece proteção e quem será exposto à morte lenta ou à repressão imediata. Essa lógica, denunciada sistematicamente pela Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas, revela que não se trata de falhas ou distorções isoladas, mas de um modelo estruturado de gestão da desigualdade racial e territorial.

Na política de drogas, a seletividade penal recai sobre jovens negros das periferias, que representam a maior parte da população encarcerada por crimes não violentos relacionados a pequenas quantidades de entorpecentes. Essa política se baseia em uma visão punitivista que ignora as causas sociais do consumo e do tráfico, enquanto transforma bairros inteiros em alvos de operações policiais brutais, como se fossem zonas de exceção. A justificativa da segurança serve para legitimar o controle armado de territórios racializados, gerando um estado permanente de medo e desconfiança.

No campo ambiental, o que se vê é a institucionalização do envenenamento de territórios negros. O caso de Ilha de Maré é emblemático: cercada por empreendimentos industriais e portuários, a comunidade enfrenta uma série de doenças causadas pela poluição, câncer, problemas respiratórios e intoxicações. E, como bem aponta o conceito de racismo ambiental, formulado por ativistas negros nos Estados Unidos e ressignificado no Brasil, essa exposição tóxica não é aleatória: é planejada e permitida porque ocorre em áreas onde vivem pessoas negras, periféricas e com pouco acesso a mecanismos institucionais de proteção e justiça.

Ambas as formas de violência, a penal e a ambiental, operam por uma mesma lógica de desumanização. Se na guerra às drogas o corpo negro é considerado perigoso e, portanto, matável, nas disputas ambientais ele é considerado descartável, como se a vida ali tivesse menos valor, evidenciando como o proibicionismo e a política de desenvolvimento econômico se fundem para manter o controle racial do espaço urbano e rural.

Portanto, não há como separar a luta por uma nova política de drogas da luta contra o racismo ambiental. Ambas são lutas pelo direito à vida digna, pelo reconhecimento do valor dos territórios negros e pela ruptura com o modelo de Estado que naturaliza a morte quando ela acontece longe dos centros brancos e ricos do país. Assim como o Toxic Tour denuncia a destruição ambiental com base em vivências quilombolas, a Iniciativa Negra propõe políticas centradas no cuidado, na autonomia e no protagonismo das comunidades afetadas, um projeto de vida contra a política de morte.

6. Fechamento – Abertura: por uma política de cuidado e justiça racial

As lutas antiproibicionista e ambiental, quando observadas a partir das experiências negras, mostram-se como partes indissociáveis de um mesmo enfrentamento: o combate ao racismo estrutural que molda o Estado brasileiro desde sua origem. Tanto o Toxic Tour da comunidade de Ilha de Maré quanto as análises da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas, revelam que os territórios negros continuam sendo tratados como espaços de sacrifício – seja pela via da criminalização punitiva, seja pela negligência ambiental sistemática.

Entretanto, essas comunidades não apenas denunciam: elas propõem, constroem e sustentam alternativas. O tour, ao transformar o território em espaço pedagógico e político, rompe com o silenciamento histórico e mostra que há saberes vivos, ancestrais e insurgentes capazes de reverter a lógica da destruição. Do mesmo modo, a Iniciativa Negra, reconfigura o debate sobre drogas ao centrar a perspectiva negra e comunitária, rompendo com paradigmas repressivos e apontando para políticas baseadas em cuidado, reparação e justiça racial.

Romper com a guerra às drogas e enfrentar o racismo ambiental são tarefas interligadas – ambas exigem reconhecer que não há neutralidade possível diante da violência que estrutura o cotidiano de populações negras. Uma nova política, verdadeiramente transformadora, precisa nascer de baixo para cima: dos territórios que resistem, das vozes que foram historicamente caladas, dos corpos que seguem vivos, apesar da tentativa constante de apagamento. Entre os gases tóxicos e os fuzis do Estado, os quilombos urbanos e litorâneos seguem ensinando que resistir é também reinventar a vida.

Larissa Neves
Assessora de Advocay na Iniciativa Negra

Fotos por Jefferson Machado

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