Iniciativa Negra

Travestis negras, uso de drogas e direito ao cuidado – o que pensa a Iniciativa Negra sobre Linn da Quebrada e a cobertura da imprensa

Difusão e Cultura
Saúde Pública
12/05/25
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“De noite pelas calçadas
Andando de esquina em esquina
Não é homem nem mulher
É uma trava feminina
Parou entre uns edifícios, mostrou todos os seus orifícios
Ela é diva da sarjeta, o seu corpo é uma ocupação
É favela, garagem, esgoto e pro seu desgosto
Está sempre em desconstrução”

Ouvir e ler a poesia de uma travesti negra é ver o resgate de um senso de humanidade profundamente violentado pelos processos sociais de estigmatização. Enxergadas nessa humanidade, travestis negras poderiam ser mais bem reconhecidas na sua potência enquanto pensadoras, artistas, criadoras, promotoras de vida, cultura, saúde e riqueza – e não é realmente possível a construção de um projeto de democracia e direitos humanos que não defenda esse reconhecimento de forma inegociável.

Nas últimas semanas, a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas acompanhou, com preocupação e indignação, a exposição desproporcional que a imprensa e a sociedade impuseram à cantora, compositora e atriz Linn da Quebrada. Linn se afastou temporariamente das próprias atividades profissionais para cuidar de sua saúde e bem-estar, por estar enfrentando “desafios relacionados à saúde mental, o que resultou no abuso de substâncias e no agravamento da depressão”, de acordo com nota publicada pela sua assessoria. A equipe informou ainda que Linn vinha sendo acolhida, “recebendo o apoio necessário de pessoas próximas, de sua equipe e de profissionais especializados, priorizando seu processo de recuperação e fortalecimento”. Mas apesar do esforço realizado pelo time para informar seu estado sem deixar de preservá-la, o que dominou as redes e a imprensa foi uma narrativa distorcida e estigmatizante, além de racista e transfóbica.

A repercussão foi particularmente inflamada pela viralização de um vídeo que havia circulado em mídias sociais nas semanas anteriores, descrito (de forma distorcida) como um registro de Linn circulando pela região da Cracolândia, no centro de São Paulo – um território que é alvo não só de extrema estigmatização, como também de uma série de violações de direitos, que vêm sendo denunciadas há uma década pela Iniciativa Negra, em parceria com outras organizações. A força do estigma contra todas essas pessoas humanas – travestis negras, usuários de drogas, frequentadores da Cracolândia – foi evidenciada pela repetição exaustiva de uma mesma manchete, com as mesmas palavras, em uma variedade de jornais, portais e perfis: “Após ser vista na Cracolândia, Linn da Quebrada é internada”.

Em diálogo com a Iniciativa Negra, a assessoria de Linn revelou que a própria decisão de publicar uma nota, expondo uma dimensão vulnerável e particular da vida da artista, partiu da necessidade de contornar a situação abrupta e desrespeitosa que foi criada pela circulação das imagens, provocando um intenso assédio da imprensa – a princípio, a título de “preocupação” com a condição de Linn. “Acabou se tornando sobre isso: sobre justificar um vídeo, uma imagem fora de contexto, reproduzida e citada em meio a fofocas e informações não apuradas sobre o que estaria acontecendo com a Lina. Avaliamos o momento, o impacto que a situação poderia ter na vida pessoal e profissional dela, e entendemos que era essencial prestar esclarecimentos de forma clara e responsável antes que algo fosse publicado fora de contexto – o que acabou acontecendo da mesma forma apesar de nosso cuidado”, contou a equipe.

Cerca de um mês depois, a própria Linn voltou a se manifestar em público, em uma entrevista honesta e corajosa ao programa Fantástico, da TV Globo, veiculada no último domingo, dia 11 de abril. Na entrevista, Linn comentou as circunstâncias em torno do seu afastamento, e compartilhou que já era um passo previsto, independentemente do vídeo e das fotos que circularam nas redes e na imprensa. Mas não deixou de fazer uma provocação contundente, com a sensibilidade que lhe é característica: “A internet torna tudo uma réplica sem fim. Parece que eu estava na rua milhões de vezes, num lugar que eu não estou, que é a Cracolândia. Apesar de que, sim, eu estava em situação de vulnerabilidade e de uso abusivo de substâncias. E por isso eu pergunto: qual é o problema daquele vídeo? Se eu estivesse na Cracolândia, eu não mereceria mais amor?”

É preocupantemente comum que a imprensa não se interesse em buscar formas seguras e responsáveis de falar sobre situações que envolvem o uso ou abuso de substâncias. Carlos Santos, coordenador de comunicação na Iniciativa Negra, problematiza o misto de desinteresse e irresponsabilidade que marca a maior parte das discussões e coberturas na mídia e nas redes sociais – muitas vezes, inclusive, nos perfis de fofoca. Para Carlos, especialmente no caso de Linn da Quebrada, trata-se de uma insensibilidade evidente: “Eu acho que existe, de fato, um interesse em tornar aquela pauta clicável. E os assuntos complexos não são clicáveis, porque eles requerem o tempo de parar, ler, entender… mas quem está interessado em entender a dor de Lina? Eu acho que esse é um sintoma da sociedade como um todo, mas especialmente dos jornalistas: o interesse não é entender a dor da companheira, nem a relação complexa que existe entre substância, sujeito, contexto, história, raça, gênero, território. O interesse é viralizar, a despeito de toda dor”.

Levar esses fatores em consideração é fundamental para entender a onda de sensacionalismo e desinformação em torno do afastamento da cantora, que não tem a ver simplesmente com a questão das drogas em si, nem do uso ou do abuso de substâncias. Para além disso, a exposição de Linn também é consequência de uma estrutura de violência complexa em que classe, racismo e transfobia atuam de forma intrincada, impactando inclusive a maneira como a sociedade percebe o seu corpo e a sua relação com o uso de substâncias, em uma situação de vulnerabilidade. Travestis negras já são historicamente estigmatizadas, sendo frequentemente associadas ao uso e abuso de drogas, e a escolha por enquadrar a narrativa de Linn dessa forma, focando na simples (e suposta) presença do seu corpo na Cracolândia, não é apenas uma reprodução desse estigma: é também uma forma de o fortalecer.

Dandara Rudsan, que é assessora de projetos na Iniciativa Negra e é também uma travesti negra, tem uma avaliação que aponta precisamente na mesma direção da de Linn: para ela, a engrenagem principal das distorções não tem a ver exatamente com o vídeo que circulou, mas com o próprio estereótipo que ele ajudou a reproduzir – uma violência que, segundo ela, estaria em funcionamento mesmo que as imagens não tivessem vindo a público. “As pessoas que atacam não precisam de provas. A foto, claro, foi exaustivamente reproduzida, porque na nossa sociedade a fotografia materializa as circunstâncias, mas pode notar, depois que se descobriu que o vídeo não era verdadeiro, não mudou em absolutamente nada o impacto na vida dela, a agressão, nada. Eles utilizam a foto para materializar a responsabilidade nela, dizer que ela estava ali naquele lugar, na Cracolândia. Mas sem a foto existir, existem vários casos em que só a especulação já tira a vida de uma travesti”, afirma Dandara.

Na mesma direção, Carlos também critica a exploração de narrativas racistas e transfóbicas que se espalham reiteradamente de forma viral, rasa e acelerada, sem constrangimento: “Eu fico espantado com o conforto que se sente em falar sobre certos corpos, sobre certas pautas. O que a gente vê é, de fato, uma capitalização bizarra da dor do outro, e algumas dores são muito capitalizáveis, né? Já é uma expectativa da sociedade ver o corpo de Linn – que, de alguma forma, é também o meu corpo LGBTQIA+ negro – nessa sarjeta mesmo, como ela diz na música dela”. Para Dandara, no caso particular de travestis negras, a circulação de histórias como essa, contadas dessa forma, ajuda a mover uma engrenagem de violência estrutural e estruturante. “É uma coisa muito histórica, e nessas horas dá uma tristeza muito grande, porque parece que a gente não conseguiu andar em relação à sensibilização dessa sociedade, sabe? E para além da tristeza, dá também uma revolta muito grande, um medo muito grande, porque quando acontece isso com uma travesti como a Lina, atravessa todas as outras travestis pretas que estão por aí nesse país”, Dandara diz.

TRAVESTIS NEGRAS E USO DE DROGAS: “REALIDADES INVISÍVEIS”

Trazer esses marcadores e intersecções para o centro das conversas sobre o uso e abuso de substâncias é uma preocupação fundamental no trabalho da Iniciativa Negra. Desde o seu surgimento, há dez anos, a organização vem denunciando a maneira como a política de drogas e a percepção da sociedade sobre o uso de drogas impactam de forma violenta e desproporcional as populações que também são vítimas das desigualdades de raça, gênero e sexualidade – como é o caso de travestis negras. Em março de 2024, a organização realizou a pesquisa Realidades Invisíveis, que buscou levantar dados e ampliar a visibilidade das lutas e resistências de mulheres negras cis, trans e travestis, que usam drogas ou vivem em territórios vulnerabilizados pela política de drogas nas cidades de Altamira e Belém, na Amazônia Paraense. E apesar do recorte territorial das participantes ser bastante diferente daquele em que Linn vive, os resultados não deixam de apontar para os desafios comuns provocados pelo racismo, machismo e transfobia na realidade de travestis negras espalhadas pelo Brasil.

Um dos diagnósticos mais duros da pesquisa, que foi coordenada por Dandara Rudsan, é que a violência é um marcador constante na vida dessas mulheres, que enfrentam desafios complexos e multifacetados. De acordo com o relatório do estudo, “um dos principais desafios enfrentados é o estigma e a discriminação, onde mulheres cis, trans e travestis, principalmente aquelas usuárias de drogas e/ou que sobrevivem em territórios afetados diretamente pela guerra às drogas, frequentemente sofrem discriminação com base na sua identidade de gênero e orientação sexual, tanto em espaços públicos quanto privados. Essa discriminação pode se manifestar de várias formas, incluindo violência verbal, física e psicológica, além da exclusão social e econômica.”

Comentando sobre a pesquisa, Dandara aponta para o quadro de dupla exclusão enfrentado por travestis negras, uma vez que o racismo e a transfobia não só vulnerabilizam a saúde mental delas, como também limitam o seu acesso a políticas públicas ou equipamentos públicos de cuidado e acolhimento. “Conversando e dialogando conosco, muitas disseram que já tiveram problemas com uso abusivo de substâncias, mas são as mesmas mulheres, por exemplo, que não cogitam ir ao CAPS, para ter um acompanhamento. E não cogitam porque elas não veem o próprio corpo lá. Mesmo as que conhecem e acessam, elas sempre explicam a barreira para acessar”, conta Dandara. Para a assessora, quando uma história como a de Linn vem à tona da forma como aconteceu, afogada em estigmas e estereótipos, esse problema se aprofunda, distanciando ainda mais as travestis negras das possibilidades de cuidado, isolando-as e alastrando os efeitos dessa invisibilização. “E não é por acaso, isso é planejado, desenhado pelo imperialismo, para que a gente tenha esse ciclo destrutivo e de autoexclusão, que opera dessa forma: colocando a culpa na gente pela desgraça que eles causaram”, diz Dandara.

TRAVESTIS NEGRAS E O DIREITO AO CUIDADO

A Iniciativa Negra também denuncia os impactos do sofrimento mental causado pela transfobia e pelo racismo na vida de travestis negras, que pode deixá-las mais vulneráveis a realidades como a depressão e o abuso de drogas. De forma muito frequente, o silenciamento dessa camada do problema dá origem a narrativas individualizantes e culpabilizantes, que obstruem uma reflexão mais coletiva e estrutural sobre o tema das drogas. Reduzir o estado mental de Linn ao abuso de substâncias, sem considerar essas intersecções, é ignorar toda a responsabilidade compartilhada de uma sociedade racista e transfóbica.

Sendo uma pessoa pública, Linn ainda enfrenta o risco de um dano que pode ser irreparável, que ameaça não só o reconhecimento do seu trabalho criativo e artístico, como pode também reduzir sua narrativa a um episódio isolado, num processo de desumanização evidente. Não por acaso, de acordo com a sua assessoria, a exposição em torno da internação foi um evento realmente sem precedentes na trajetória da cantora – incomparável, por exemplo, a qualquer outro momento de destaque ou sucesso. “Apesar de ela ser uma figura pública, que reúne diferentes públicos por conta dos diversos trabalhos artísticos que realiza, nada se compara ao interesse despertado pelos veículos a partir de uma notícia deturpada e sensacionalizada”, conta a equipe. Para Dandara Rudsan, há um pequeno choque em constatar que, em última instância, tratava-se apenas de uma notícia sobre uma pessoa que procurou por acolhida e acompanhamento profissional em uma situação de vulnerabilidade. “No final das contas, a única coisa que estão reportando é que ela está tendo cuidado. Por que isso é tão polêmico quando se trata do corpo de uma travesti? Quer dizer que a gente não tem direito ao cuidado, a reivindicar esse cuidado?”, questiona Dandara.

Na transformação desse cenário, é fundamental promover formas mais responsáveis de falar sobre o uso e o abuso de substâncias, disputando os campos da comunicação e da cultura e promovendo novas percepções sociais a respeito do tema das drogas – sempre considerando as complexidades de raça, gênero e classe que estão estruturalmente envolvidas. Como argumenta Carlos Santos, “fazer uma contranarrativa é necessário, mostrar para as pessoas que existe um outro caminho, e que as substâncias, na verdade, são coadjuvantes nessa história. A gente está falando da história de vida de uma travesti negra que foi violentada, e continua sendo violentada independentemente do espaço que ela ocupa, porque ela é uma travesti negra. Eu acho que esse é o grande nó: não é sobre a substância, é sobre quem usa a substância e sobre quem tem direito ao cuidado, quem tem direito ao afeto e quem não tem. E a Iniciativa Negra se posiciona para afirmar que Linn tem esse direito”.

O projeto que a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas trabalha para construir é um projeto pautado no acolhimento, no cuidado e no reconhecimento da humanidade de travestis negras, e todas as pessoas usuárias de drogas. Em perspectiva antiproibicionista e interseccional, a organização vem atuando para defender e promover ações de redução de danos e cuidado, com respeito à autonomia, à liberdade e à dignidade de todas as pessoas, particularmente aquelas mais afetadas pelos impactos da guerra às drogas. Combater o estigma e trabalhar por políticas de proteção a travestis negras usuárias de drogas é uma tarefa essencial, assumida pela Iniciativa, reconhecendo as vulnerabilidades particulares que impactam essa população, bem como seus direitos, suas potências e sua humanidade. Sobretudo, sua humanidade.

Celebramos o talento e o brilho de Lina Pereira, Linn da Quebrada, e comemoramos sua recuperação e seu retorno para os palcos, para as telas de cinema, para a arte tão cheia das coisas incríveis que ela se dispõe a criar, e também a destruir.

Direção e Produção Editorial
Nathalia Oliveira

Reportagem
Murilo Araújo

Colaboração
Dandara Rudsan
Carlos Santos
Kya Mesquita
Romero Mateus

Ilustrações e Narrativa Visual
Carlos Santos

Realização
Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas

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