Estudo inédito mapeia a exposição de escolas públicas a tiroteios entre 2023 e 2025 e reitera a concentração da violência nos territórios com maior população negra. Relatório da primeira etapa do projeto foi lançado em dois eventos em Salvador, reunindo lideranças da educação, da sociedade civil e dos poderes públicos.
O Instituto Fogo Cruzado e a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas lançaram, na última semana, em Salvador, o primeiro volume da pesquisa “Trajetórias Protegidas: construindo caminhos para uma educação segura”. Realizado com apoio da Imaginable Futures, o estudo mapeia os impactos da violência armada sobre as escolas públicas de Salvador e aponta caminhos para garantir o direito à educação nos territórios mais afetados. Os dados do estudo foram apresentados e discutidos em uma Audiência Pública realizada junto à Câmara Municipal de Salvador, na quarta-feira (12), e também num seminário promovido na quinta (13) no Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia.
Intitulado “A Geografia da Exposição: disparos de arma de fogo, território e escolas afetadas em Salvador”, o relatório da primeira etapa da pesquisa traz um levantamento inédito sobre ocorrências de disparos de armas de fogo no entorno de escolas públicas municipais e estaduais de Salvador entre 2023 e 2025, analisando o impacto dos conflitos armados na realidade cotidiana das comunidades escolares e na própria garantia do direito à educação.

Ao longo do período analisado, o estudo mapeou 3.748 disparos de armas de fogo na cidade, uma média de 3,4 ocorrências por dia. Desse total, 59% das ocorrências aconteceram em dias letivos, e 40% à luz do dia, coincidindo com momentos de trânsito, entrada e saída de estudantes e profissionais da educação. O relatório também aponta que dos 163 bairros de Salvador, apenas oito concentram quase 20% de todos os tiroteios no período – todos eles com população não-branca (preta, parda e indígena) superior a 80%.
Para Dudu Ribeiro, Diretor Executivo da Iniciativa Negra, os dados evidenciam um quadro flagrante de desigualdade socioeconômica, racial e territorial. “A saturação desses dados dentro desses territórios revela territórios violentados, e violentados tanto pela omissão quanto pela ação do Estado, já que parte significativa desses eventos de tiroteio, cerca de 37%, foram monitorados em ações e operações policiais. Então é preciso estabelecer protocolos, estabelecer políticas públicas que garantam a proteção da escola, e assim produzir percursos que nos conduzam a uma trajetória de infâncias e adolescências protegidas”, diz o diretor.
Destacando a importância de construir políticas públicas baseadas em evidências, a Diretora de Dados e Transparência do Instituto Fogo Cruzado, Maria Isabel Couto, apontou a necessidade de respostas territorializadas e investimentos específicos para as escolas e comunidades mais afetadas. “Essa pesquisa traz insumos muito concretos para mostrar que a violência armada atravessa a educação de forma rotineira e cotidiana, só que isso não acontece em todos os espaços. Isso está concentrado em determinados territórios, em determinadas escolas, e são elas que merecem atenção especial. Jamais para fechar a porta dessas escolas, mas para dar insumos para que profissionais e alunos possam construir uma sociedade melhor, além de investimento para que esses alunos tenham direito ao futuro”, afirmou a diretora.

Além do mapeamento das ocorrências de tiroteios, a pesquisa traz também resultados de diálogos com professores, gestores, trabalhadores, estudantes e familiares, que ajudam a entender, para além dos números, o impacto concreto que a violência armada impõe na realidade das comunidades escolares de Salvador. Segundo Lorena Cerqueira, Coordenadora de Pesquisa Qualitativa do projeto, “as escolas que estão nos territórios mais vulnerabilizados da cidade estão mergulhadas nesse processo de violência armada, e esse processo impacta o funcionamento escolar, impacta o desenvolvimento das atividades, e também impacta o desempenho emocional e pedagógico desses estudantes. Ele traz impactos nesse processo de desenvolvimento escolar das crianças e adolescentes, prioritariamente negras”.
Para apresentar e discutir o Trajetórias Protegidas com setores interessados da sociedade, o Fogo Cruzado e a Iniciativa Negra promoveram dois eventos ao longo da última semana: uma Audiência Pública e um Seminário, que aconteceram, respectivamente, na quarta e quinta-feira, dias 12 e 13 de agosto. A programação incluiu a apresentação dos dados da pesquisa, além de uma série de debates e atividades que buscaram discutir o tema e apontar propostas para o enfrentamento dos desafios mapeados.
AUDIÊNCIA PÚBLICA DISCUTE A PROTEÇÃO ÀS TRAJETÓRIAS ESCOLARES
Com o título “Educação sob fogo cruzado – O impacto da violência armada na Rede Pública de Educação”, a Audiência Pública foi realizada no auditório do Edifício Bahia Center e foi presidida pelo vereador Professor Hamilton Assis, presidente da Comissão Especial em Defesa das Infâncias e Adolescências da Câmara Municipal de Salvador. A atividade reuniu profissionais da educação, estudantes, familiares, pesquisadores, movimentos sociais, representantes do poder público e comunidades escolares, para dialogar sobre os dados da pesquisa e sobre os impactos das políticas de segurança pública no direito à educação.

Na mesa, estavam presentes Dudu Ribeiro, diretor da Diretor da Iniciativa Negra; Maria Izabel Couto, Diretora de Dados e Transparência do Instituto Fogo Cruzado; a Prof. Dra. Rita Margareth Costa Passos, integrante do CISE – Comitê Interinstitucional de Segurança nas Escolas; Olívia Mendes, Diretora Educacional do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado da Bahia – APLB; o delegado Dr. Francisco Geraldo Matos Santos, da Delegacia Especializada de Repressão a Crimes contra Crianças e Adolescentes; Ubirajara Azevedo, do Grupamento de Patrulha Escolar da Guarda Civil Municipal; Luciana Reis, coordenadora do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Yves de Roussan; e a Profa. Dra. Adenildes Teles de Lima, Presidenta do Conselho Municipal de Educação.
No debate, o presidente da sessão Hamilton Assis chamou atenção para a relevância dos dados levantados pela pesquisa, e a urgência de avançar em políticas de proteção das infâncias e adolescências nas comunidades escolares de Salvador. “Escola deveria ser lugar de proteção, de aprendizagem e de construção de futuro. Não podemos aceitar que crianças tenham que aprender a conviver com o barulho dos tiros, nem que professoras e trabalhadores da educação tenham que exercer seu trabalho sob o medo constante da violência”, afirmou o vereador.
CONSTRUINDO RESPOSTAS COLETIVAS PARA PROTEÇÃO ÀS ESCOLAS
No dia seguinte, 13 de agosto, a Iniciativa Negra e o Fogo Cruzado promoveram o Seminário “Trajetórias Protegidas: construindo caminhos para uma educação segura”, que foi realizado no Auditório Milton Santos, no Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia. Assim como na Audiência Pública, o Seminário também reuniu diversos setores do campo educacional, da sociedade civil e dos poderes públicos, para um dia inteiro de reflexões, diálogos e construção de propostas para os desafios apontados na pesquisa.

O evento foi iniciado em uma mesa de abertura com a participação do Diretor Executivo da Iniciativa Negra, Dudu Ribeiro, e da Diretora de Dados e Transparência do Fogo Cruzado, Maria Isabel Couto, que apresentaram o projeto Trajetórias Protegidas e destacaram a importância de conectar o tema da segurança pública com outros direitos como a educação. Em seguida, os diretores cederam a palavra às Coordenadoras de Pesquisa Quantitativa e Qualitativa do projeto, Bárbara Barbosa e Lorena Cerqueira, que fizeram uma rica apresentação com os principais dados levantados na primeira etapa do projeto, e as recomendações propostas pelo relatório a partir dessas evidências.
A manhã foi encerrada com uma mesa de debate com diversos convidados, para discutir os dados e pensar caminhos de proteção às trajetórias escolares. Participaram da conversa o promotor Adriano Freire, coordenador do Centro de Apoio Operacional de Defesa da Educação (CEDUC) do Ministério Público da Bahia; o Secretário de Justiça e Direitos Humanos da Bahia, Felipe Freitas; Danilo Pereira, assessor do Deputado Hilton Coelho; a professora Denise Silva de Souza, do Coletivo de Coordenadoras/es da Rede Municipal de Salvador; além de Olívia Mendes, Diretora Educacional da APLB-Sindicato.

Após o almoço, na parte da tarde, a programação incluiu ainda uma atividade de diálogo entre uma série de organizações, incluindo representantes da sociedade civil, trabalhadores da educação e lideranças de movimentos sociais. Em uma rodada de trocas em grupos, os participantes foram convidados a discutir os dados da pesquisa de forma mais próxima, propondo caminhos e estratégias compartilhadas para enfrentar os desafios apontados pelo relatório. A atividade também buscou ampliar e aprofundar a articulação entre as organizações e lideranças presentes, fortalecendo as redes em defesa da educação e da vida de crianças e adolescentes em Salvador.
Convidada presente nos dois dias de evento, a Diretora Educacional do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado da Bahia – APLB, Olívia Mendes, ressaltou a importância da pesquisa como instrumento para compreender os impactos da violência armada sobre as comunidades escolares, subsidiando a construção de políticas públicas. “Ocorrem violências de todo tipo no entorno da escola, e isso vem prejudicando os estudantes e vem tirando deles o direito constitucional à educação. E a violência ameaça também os profissionais que adoecem sem ter recursos para cumprir esse ritmo, viver essa realidade de violência. Isso é uma ameaça ao aprendizado, à qualidade da educação. Então essa pesquisa é de suma importância, para construir políticas públicas no combate à violência e assim garantir uma educação de qualidade, uma educação inclusiva”, afirmou a professora.

Os dois dias de lançamento foram marcados por conversas frutíferas e pelo fortalecimento das redes de proteção das trajetórias escolares em Salvador. As atividades propiciaram um importante diálogo entre diferentes setores envolvidos na defesa do direito à educação e na construção de políticas de segurança pública capazes de considerar as desigualdades territoriais e raciais evidenciadas pelo relatório. As propostas e compromissos construídos ao longo dos encontros também possibilitam aprofundar o alcance do projeto Trajetórias Protegidas, que terá continuidade em novas etapas, ampliando o estudo sobre os impactos da violência armada sobre a realidade das escolas públicas de Salvador.
O primeiro volume do Trajetórias Protegidas, “A Geografia da Exposição: disparos de arma de fogo, território e escolas afetadas em Salvador”, que reúne os dados e recomendações da primeira etapa, está disponível para leitura completa no site da Iniciativa Negra.
Reportagem por Murilo Araújo