Iniciativa Negra

Iniciativa Negra promove lançamento da ‘Intersecção’, revista com debate pioneiro sobre drogas e justiça climática

Difusão e Cultura
Participação Social
08/05/25
Compartilhar

A publicação é uma edição especial da revista PLATÔ, da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, organizada em parceria com a Iniciativa Negra e a Coalizão Internacional para a Reforma da Política de Drogas e Justiça Ambiental. O evento de lançamento, na zona sul de São Paulo, também marca o início da parceria entre a Iniciativa Negra e o Bloco do Beco.

No último dia 24 de abril, a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas realizou o lançamento do novo número da Revista PLATÔ, a edição especial Intersecção, publicada pela Plataforma Brasileira de Políticas de Drogas em parceria com a Iniciativa Negra e a Coalizão Internacional para a Reforma da Política de Drogas e Justiça Ambiental. O evento aconteceu na sede da Associação Cultural Bloco do Beco, na zona sul de São Paulo, com uma programação de debates, música, poesia, maracatu e bons encontros. As conversas giraram em torno das conexões entre os temas da política de drogas, do uso da terra e da justiça climática, uma intersecção que é explorada de forma pioneira nesta edição da revista.

A publicação nasce como parte de um projeto que leva o mesmo nome: Intersecção, uma empreitada sonhada e coordenada por Rebeca Lerer, da plataforma Sinal de Fumaça, que foi incubado e desenvolvido em parceria com a Iniciativa Negra. Segundo Rebeca, com o agravamento recente da crise ambiental no Brasil, particularmente durante os anos do governo Bolsonaro, foi perceptível também como o tema das drogas e a atuação do crime organizado foram ganhando espaço no debate público e na cobertura da imprensa. “Isso passou a ter um peso muito maior em relação às questões de conflitos territoriais, especialmente na região amazônica. E aí apareceram termos como ‘narcodesmatamento’ e ‘narcogarimpo’. De repente, todo um problema de muitos séculos, de um modelo colonial de uso da terra e de ocupação dos territórios no Brasil, todo o problema do desmatamento passou a ser resumido às facções e à droga”, ela diz.

Para além disso, Rebeca conta que também começou a observar e pesquisar as cadeias de valor e o ciclo econômico e produtivo da cocaína, que sai de plantações clandestinas de coca nos territórios da América Latina e chega a custo de ouro nas boates do norte global. Segundo ela, os impactos (inclusive socioambientais) que são gerados por essa cadeia são uma consequência direta da política de proibição e guerra – uma realidade que acaba por atingir não só usuários ou trabalhadores do tráfico, mas a própria saúde da terra explorada em práticas pouco ecológicas, os rios usados como rotas de transporte de drogas, a cultura e soberania de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos afetados pelos conflitos armados. “Nós fomos juntando pontos nesse processo, e eu conversei com os parceiros da Plataforma Brasileira de Política de Drogas e da Iniciativa Negra, que abraçaram o conceito. Contamos também com mais um parceiro, que é a Coalizão Internacional para a Reforma da Política de Drogas e Justiça Ambiental. E aí, há cerca de um ano e meio, a gente está articulando esse projeto”, conta a jornalista.

Nesse tempo, diferentes ações de diálogo e escuta ativa vêm sendo realizadas, envolvendo uma multiplicidade de ativistas, mobilizadores, lideranças comunitárias, indígenas, ribeirinhas e quilombolas, pesquisadores, representantes da sociedade civil e pessoas dos mais variados perfis. A publicação da edição da PLATÔ dedicada ao Intersecção é o primeiro fruto público desse processo, tendo essa diversidade de vozes como característica marcante – como comentou a diretora da Iniciativa Negra, Nathalia Oliveira, em sua participação no evento de lançamento. “Esses dois anos de Intersecção foram um processo de acúmulo e ajuntamento de várias visões para uma situação complexa, porque a Iniciativa nunca se propôs a oferecer uma resposta pronta, como se nós tivéssemos a solução. É uma característica do nosso trabalho de advocacy fazer sempre em rede, e essa revista é uma primeira produção coletiva, com mais de 17 autores no Brasil escrevendo sobre isso e provocando as pessoas a pensar”, disse Nathalia.

Além da promoção do lançamento e da participação no projeto, a Iniciativa também colaborou com dois dos artigos que compõem a publicação. Dandara Rudsan, assessora de projetos na organização, assina o texto “Megaprojetos e políticas de drogas na Amazônia Paraense: um nexus de insegurança pública e encarceramento seletivo”. Já o artigo “A guerra às drogas como ameaça à democracia na floresta, no campo e na cidade” é assinado coletivamente por Dudu Ribeiro, que é diretor executivo, Juliana Borges, coordenadora de Projetos Estratégicos, e Nathália Oliveira, também diretora executiva na Iniciativa Negra.

POLÍTICA DE DROGAS E JUSTIÇA CLIMÁTICA: UMA INTERSECÇÃO DE VANGUARDA

A publicação é pioneira na maneira como explora as interconexões entre os temas da política de drogas, do uso da terra e da justiça climática, pautas que praticamente não aparecem de forma conectada na formulação de políticas públicas, ou mesmo na atuação dos movimentos ambientalistas e antiproibicionistas. Como aponta Luana Malheiros, da secretaria executiva da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, “no campo da política de drogas se fala muito de eixos como segurança pública, a questão da saúde ou o direito à cidade. Mas a questão da justiça climática e da justiça ambiental estava gritando, principalmente na realidade brasileira”. Luana aponta para desafios como os megaempreendimentos em territórios ribeirinhos e a perda de autonomia de povos e comunidades afetados pela proibição e pela guerra às drogas – não por coincidência, as mesmas populações que são mais afetadas pelos impactos das mudanças climáticas. “A gente entende que a política sobre drogas nos convoca a essa intersecção, a olhar para esses diversos eixos que hoje são nós críticos para pensar essa questão. Então, a gente achou que essa conexão era o que faltava para o nosso campo”, Luana argumenta.

Para Dandara Rudsan, assessora da Iniciativa Negra e autora da revista, trata-se de um tema de vanguarda, com uma contribuição importante para o campo antiproibicionista e todos os movimentos interessados na defesa e promoção da justiça e dos direitos humanos. “Não tem nenhuma organização desse país, nenhum militante, nenhum ativista, que possa a partir de agora, pelos próximos cem anos, imaginar em trabalhar sem falar de justiça climática. Não há como, é o tema central para a nossa existência, para a existência do mundo”, afirma Dandara. A assessora destaca também o momento estratégico em que a revista é publicada, apenas alguns meses antes da próxima Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP30, que será realizada em novembro na cidade de Belém, no Pará. “Os olhos do mundo estão voltados para o Brasil, principalmente para a região amazônica, então é uma janela de destaque importante para a gente passar essa mensagem para o mundo”, afirma.

Dandara chama atenção para o olhar diverso e territorializado que a publicação apresenta, com o potencial de ampliar o alcance de vozes que não encontram lugar nos espaços oficiais de decisão e formulação de políticas. “Eu falo, como uma mulher ribeirinha, que os espaços institucionalizados não nos cabem, sendo que nós é que estamos sendo prejudicados na ponta da lança, sem poder utilizar cada vez mais territórios da região amazônica. Cada vez menos terra a gente pode utilizar, por conta da ilegalidade do narcogarimpo, que é provocado pela proibição. Então o projeto Intersecção é muito importante, nesse momento, como um veículo propulsor das vozes de comunidades tradicionais”, afirma Dandara.

Por esse caráter, a edição Intersecção pode ser um importante material de letramento também para o movimento ambientalista, organizado em espaços como a COP, tornando possíveis novas soluções para as políticas ambientais e de defesa dos territórios – sem simplesmente reproduzir a lógica da presença militar ostensiva que já mostra ineficácia no caso da guerra às drogas. Para Rebeca Lerer, é uma oportunidade de pensar o debate das drogas de forma mais complexa, considerando aspectos socioeconômicos e ambientais, e pautando o tema de forma mais estruturante. “A gente está conseguindo ampliar o escopo da discussão e colocar o debate sobre políticas de drogas onde ele deve estar, que é no centro das políticas de desenvolvimento do país. Não é só uma questão de polícia, não é só uma questão de saúde, é uma questão de economia, direitos civis, de estigma, contexto de vida, são muitas questões envolvidas. Então, acho que a importância do projeto vem de começar a jogar luz sobre isso, de forma interseccional e a partir de uma inteligência coletiva”, diz Rebeca.

DEBATE, MÚSICA E CULTURA NA ZONA SUL DE SÃO PAULO

O lançamento da PLATÔ Intersecção aconteceu na sede do Bloco do Beco, uma associação cultural fundada há mais de duas décadas, que funciona como Ponto de Cultura no Jardim Ibirapuera, bairro da zona sul de São Paulo – um território urbano vulnerabilizado, que também sofre os impactos desiguais da guerra às drogas e das mudanças climáticas. O evento marcou o início de uma bonita parceria entre o Bloco do Beco e a Iniciativa Negra, que também está em processo de oficialização como Ponto de Cultura na cidade.

A recepção do público foi embalada pela música do DJ Sandro Konvicto, na abertura do evento. Na programação, intervenções de poesia com os artistas Akins Kinte, Jennifer Nascimento e King Abraba, e também a apresentação vibrante do Maracatu Baque Atitude, um dos vários projetos realizados pelo Bloco do Beco, que oferece formação musical e cultural para adolescentes e jovens. A mesa principal tratou dos três temas centrais discutidos na revista: uso da terra, política de drogas e justiça climática. Com mediação de Juliana Borges, coordenadora na Iniciativa Negra e autora da revista, a conversa teve a participação de Débora Silva, do movimento Mães de Maio, Anabela Gonçalves, produtora cultural e ativista, e das também autoras Dandara Rudsan, assessora na Iniciativa Negra, Luana Malheiros, da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, e Nathália Oliveira, diretora executiva da Iniciativa Negra.

Arailda Carla, que é uma das fundadoras do Bloco do Beco, compartilhou a alegria de receber pessoas de tantos lugares na sede do projeto, em um território periférico, para debater perspectivas de transformação e mudança. “Hoje eu vi o todo e descobri pessoas incríveis e maravilhosas, como Dandara, que vem lá do Pará, ou a Luana, de Salvador, tantas pessoas. Fiquei muito curiosa pra ler os artigos, e estou maravilhosamente encantada com todos os movimentos que nós fizemos hoje, porque isso traz um pouco do que a gente sonha, do que a gente projeta pro mundo”, disse Carla.

Em sua participação na mesa do evento, a diretora da Iniciativa, Nathalia Oliveira, também falou da potência da aproximação com a região da Zona Sul, a partir de um projeto tão radicado naquele território – um desejo antigo da organização, que precisou ser amadurecido por algum tempo para ser feito de forma consistente. “A gente está há dez anos amadurecendo os vários caminhos que a Iniciativa abriu, e entendemos que a gente quer gastar tudo o que a gente acumulou, a nossa prática e a nossa formulação, co-construindo com os nossos. Foi inevitável chegar num caminho de consolidar a nossa atuação territorial, tanto na Bahia, quanto no estado de São Paulo, e recentemente também no Pará”. Segundo Nathalia, foi na busca por referências potentes para aprofundar essa atuação que surgiu a aproximação com o Bloco do Beco. “A gente não quer chegar e pagar de estrangeiro, ver o trabalho e nunca mais voltar. A ideia era realmente enraizar e de fato poder fazer trocas. Tanto a Iniciativa quanto o Bloco do Beco se entendem hoje como protagonistas de trabalhos e práticas que podem ser trocados, que devem ser multiplicados. Então a gente fica muito feliz de poder chegar tendo coerência com a nossa trajetória”.

Além do evento em São Paulo, a edição especial Intersecção também terá atividades de lançamento nas cidades de Brasília, Rio de Janeiro, Salvador e Belém. A publicação completa está disponível também em edição virtual em português, espanhol e inglês, no site da Iniciativa Negra.

Reportagem por Murilo Araújo
Fotos por Luiz Fernando Petty

Compartilhar