Com uma programação diversa, o seminário reuniu gestores, ativistas, produtores culturais e especialistas latino-americanos para discutir políticas culturais de base comunitária. Participação no evento fortalece a atuação cultural da Iniciativa Negra, que está em processo de oficialização como Ponto de Cultura no estado de São Paulo.
A Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas esteve presente no Seminário Internacional sobre Cultura Viva Comunitária: uma Escola Latino-Americana de Políticas Culturais, que ocorreu nos dias 08 a 10 de abril, na Cidade do México. Reunindo gestores, ativistas, produtores culturais, pesquisadores e estudantes, o seminário promoveu espaços de diálogo e formação voltados para o fortalecimento das políticas culturais de base comunitária na América Latina e na Ibero-América. Buscando favorecer a cooperação internacional no tema das políticas culturais, o encontro nasce de experiências como os Pontos de Cultura, que são o principal modelo da Política Nacional de Cultura Viva no Brasil, e se tornaram referência internacional com considerável expansão para a América Latina.
Participaram do evento no México a diretora executiva da Iniciativa Negra, Nathália Oliveira, e também o assessor de advocacy da organização, Alex Barcellos. Além de acompanharem uma série de discussões, visitas a territórios e atividades culturais, os dois também compuseram uma mesa de debates no último dia do evento. A pauta foi Economia Solidária e Cultura Comunitária Viva, e também participaram da conversa Niurka Chávez, do México, Luana Vilutis e Leandro Anton, do Brasil, além de Aurora Beatriz, da Argentina, que fez a mediação. De acordo com Alex, o evento ofereceu uma boa oportunidade de intercâmbio em nível internacional, dialogando com diferentes contextos e realidades inclusive no tema da política de drogas. “Foram muito importantes as trocas, as vivências e os territórios em que a gente circulou. Existe uma violência muito grande hoje, dentro do território mexicano, com o narcotráfico e com os cartéis, e algumas características da política são muito diferentes, mas em si são territórios violentados sempre, né? Então foi bem importante conhecer esse lado e conversar”, conta Alex.

A participação no evento também marca um importante passo na trajetória da Iniciativa Negra, uma vez que a própria organização está em processo de oficialização enquanto Ponto de Cultura, após aprovação em edital do governo do estado de São Paulo. Para Nathalia, a chance de participar de forma oficial na implementação da Política Nacional de Cultura Viva também é sinal de consolidação e amadurecimento do trabalho da Iniciativa no campo da cultura – uma atuação que começou após o fim das restrições da pandemia, e que tem se tornando cada vez mais relevante nas ações e na estratégia da organização.
“No pós-pandemia, era um desejo muito forte da Iniciativa poder estar junto, estar em redes, buscar um diálogo com outros setores para além do campo que já atuava com a questão da política de drogas e direitos humanos. Então a gente começou a fazer o Boteco Brasileiro de Política de Drogas, que tem um bate-papo com convidados e música itinerante na cidade. Fizemos o Festival Rima e Rap da Bahia, que esse ano já vai para a quarta edição. Abrimos a nossa sede no território da Barra Funda, um território que a gente sabe que é negro, e por isso a gente desenvolveu o Cartografias de Bamba, que é um projeto que a gente ficou mais de um ano pensando e planejando antes de colocar na rua”, conta Nathalia Oliveira. Para a diretora, as ações culturais comunitárias e territoriais, relacionadas com outros setores da cultura, fortalecem o trabalho e expandem a mensagem da Iniciativa Negra, oferecendo novas perspectivas para olhar para o tema das drogas.

Além disso, como Alex argumenta, a atuação no campo da cultura e das políticas culturais também pode oferecer horizontes reparatórios para as populações mais afetadas pelos efeitos da política de drogas, o que é uma preocupação central na ação da Iniciativa Negra. “A gente tem falado muito de memória e reparação, pensando em como a gente faz a preservação da memória, e como a gente potencializa essa ‘Cultura Viva’, esses fazeres culturais que também ajudam no desenvolvimento de renda, de trabalho, do circuito cultural em geral. A narrativa da Iniciativa Negra é para conseguir falar disso, de como a gente faz a reparação desses territórios na periferia que só aparecem nas páginas policiais; como a gente muda esse circuito para destacar a parte cultural, econômica, de arte, lazer, que também é potente, mas que está inviabilizada, infelizmente”, diz o assessor.

A participação no Seminário dá início a uma potente aproximação da Iniciativa Negra com a rede de lideranças e organizações latino-americanas que constroem e implementam a política de Cultura Viva, o que tem importância estratégica na construção das ações da organização enquanto Ponto de Cultura, que devem iniciar ainda em 2025. “Fomos para esse evento com a perspectiva de aprender com as trajetórias de outros lugares que já são Pontos, e entender mais dessa política. Também apresentamos o nosso trabalho, deixamos a nossa contribuição, e a gente espera seguir em fortalecimento de laços com os vínculos que a gente foi abrindo lá”, conclui Nathalia.
(Reportagem por Murilo Araújo)