Com status consultivo inédito, organização promove apresentação pesquisa “Floresta em Pó”, que conecta política de drogas e justiça climática. Tendo expressiva participação da sociedade civil brasileira, Comissão foi marcada por avanços importantes em resoluções sobre saúde pública e Desenvolvimento Alternativo.
A Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas participou, entre os dias 9 e 13 de março, da 69ª sessão da Comissão de Narcóticos das Nações Unidas (CND), realizada em Viena, na Áustria. Considerado o principal fórum internacional de debate sobre políticas de drogas, o encontro reúne anualmente delegações governamentais, organismos multilaterais, especialistas e organizações da sociedade civil de diferentes países, para avançar na cooperação internacional em relação a esse tema. Na ocasião, a Iniciativa Negra foi mais uma vez representada pelo seu cofundador e diretor executivo, Dudu Ribeiro.
Esta foi a quinta participação da organização na Comissão, marcando dez anos de uma trajetória de incidência internacional que iniciou em 2016, quando a Iniciativa Negra apresentou a histórica Carta das Organizações Negras Brasileiras à Assembleia Geral da ONU sobre o Problema Mundial das Drogas. O documento denunciava os impactos globais da guerra às drogas sobre populações racializadas, e defendia uma reforma radical das políticas de drogas e segurança pública.
Dez anos depois, nesta edição, a participação teve um significado ainda mais especial: pela primeira vez, a organização esteve presente com credenciamento próprio para a sessão da CND, após conquistar status consultivo junto ao Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC). Em anos anteriores, a presença da Iniciativa Negra no espaço era viabilizada por meio do apoio de delegações de organizações parceiras.

Refletindo sobre as conquistas e transformações na CND ao longo desse tempo, Dudu Ribeiro relata avanços importantes nas pautas em que a organização vem incidindo. “Dez anos atrás, quando a gente apresenta a Carta das Organizações Negras, esse debate era muito incipiente. Ao longo dos anos, a participação da sociedade civil vem crescendo, assim como o tema da política de drogas relacionada com as questões raciais, que passa a fazer parte da agenda das organizações”, afirmou o diretor.
Nesta edição, segundo Dudu, um dos principais desafios foi a intervenção da extrema direita que têm se fortalecido ao redor do mundo, sobretudo a partir dos Estados Unidos, que pressionou pela retirada de temas como raça, gênero, meio ambiente e inclusive o tema da redução de danos. “Os países agora têm essa tarefa de resistir ao avanço da extrema direita, combater esse discurso de ódio dentro das Nações Unidas e fortalecer o multilateralismo. E isso também se faz a partir da ampliação da participação da sociedade civil, trabalho que nós fizemos nesses dias com inúmeras organizações parceiras, e em franco diálogo constante com a delegação do Brasil, do governo brasileiro”, relatou Dudu.

JUSTIÇA CLIMÁTICA E POLÍTICA DE DROGAS NOS DEBATES DA CND
Ao longo da programação da 69ª sessão da Comissão de Narcóticos, o principal destaque da participação da Iniciativa Negra foi a apresentação do relatório da pesquisa Floresta em Pó.
Publicação pioneira lançada em 2025, o estudo investiga as conexões entre guerra às drogas, racismo ambiental e justiça climática, a partir de dados inéditos sobre a cadeia produtiva da coca e da cocaína na Bacia Amazônica e no Brasil.
A apresentação aconteceu em um evento paralelo realizado pela Iniciativa Negra em parceria com a Coalizão Internacional pela Reforma da Política de Drogas e Justiça Ambiental, REDUC, PBPD, Instituto Fogo Cruzado, Health Poverty Action, Instituto Mãe Crioula e Transform Drug Policy. Além de Dudu Ribeiro, participaram do painel Aiala Couto, do Brasil, David Restrepo e Fabiola Piñacué, da Colômbia, e Jenna Rose Astwood, da Nova Zelândia. A conversa contou ainda com a mediação da brasileira Rebeca Lerer.

Os participantes apresentaram e discutiram os dados do relatório, apontando a urgência da intersecção entre a política de drogas e o tema das mudanças climáticas. Em sua apresentação no painel, Dudu Ribeiro destacou: “Não basta apenas reparar financeiramente os danos provocados pela política de drogas ou pelas injustiças criminais, mas também investir na reconstrução territorial em sentido amplo, contemplando políticas de moradia digna, saneamento, acesso à água potável, preservação ambiental e transição energética justa. A agenda de reparação, portanto, precisa dialogar com a justiça climática para assegurar que os territórios negros e periféricos deixem de ser vistos como zonas sacrificáveis e passem a ser reconhecidos como espaços de direito, memória e futuro”.
Além do evento paralelo, o estudo também foi tema de debate em uma noite no bar FaniaLive, um espaço dedicado à cultura latino-americana em Viena.
DESENVOLVIMENTO ALTERNATIVO E REDUÇÃO DE DANOS NAS RESOLUÇÕES DA CND
Com expressiva participação da delegação brasileira ao longo da semana de debates, a 69ª Comissão de Narcóticos foi concluída com a aprovação de cinco resoluções – duas delas apontando para importantes avanços na política global de drogas, em temas diretamente relacionados aos eixos de incidência da Iniciativa Negra e da sociedade civil.
Uma das resoluções criou um Apêndice para complementar os Princípios Orientadores das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Alternativo – uma abordagem que busca combater as cadeias ilegais de produção e comércio de drogas não através da repressão, mas pela produção de oportunidades para o desmonte dessas cadeias. A resolução foi aprovada com o objetivo de fortalecer a adoção de princípios de Desenvolvimento Alternativo sensíveis a temas como gênero e mudanças climáticas, com foco nas comunidades mais afetadas pelas políticas de drogas.

A outra resolução busca promover respostas baseadas na saúde pública para lidar com desafios ligados à questão das drogas, com base em evidências científicas e na proteção aos direitos humanos. Reconhecendo de forma explícita a importância das estratégias de redução de danos e ações de cuidado, a resolução busca promover políticas que integrem diferentes setores e serviços de saúde pública através de ações coordenadas.
Na avaliação de Dudu Ribeiro, as resoluções foram uma conquista significativa, sobretudo diante da pressão de países que trabalharam contra a aprovação dos documentos, como Estados Unidos e Argentina. “No cenário de tentativa de desmonte dos mecanismos multilaterais pelos Estados Unidos, pela extrema direita, e no meio das guerras em curso hoje, do ponto de vista da nossa participação, foi um evento muito vitorioso”, afirmou o diretor.
DUDU RIBEIRO REIVINDICA À ONU O RECONHECIMENTO DA ESCRAVIDÃO NEGRA COMO MAIOR CRIME DA HISTÓRIA
Além dos eventos organizados pela Iniciativa Negra, Dudu Ribeiro também esteve presente em diversos painéis promovidos por organizações parceiras, além de uma série de encontros e espaços de articulação internacional com organizações, movimentos e delegações governamentais. Os debates giraram em torno de temas como redução de danos, perfilamento racial, cuidado comunitário e acesso a direitos no âmbito das políticas sobre drogas.
Em uma de suas participações, Dudu Ribeiro usou o espaço da CND para denunciar os limites históricos da justiça internacional no reconhecimento das violências impostas a populações negras e povos originários. O diretor destacou como a formulação do conceito de genocídio no âmbito das Nações Unidas foi marcada por referências europeias, sobretudo a partir do Holocausto nazista – muitas vezes invisibilizando as expressões de sofrimento negro e indígena ao redor do mundo. “É crucial reconhecer como esse enquadramento produziu hierarquias de sofrimento. Ao ignorar as formas sistêmicas de genocídio praticadas contra povos negros e indígenas desde o colonialismo, a justiça internacional reforça uma estrutura que nega o direito desses grupos de nomear e denunciar sua própria aniquilação”, argumentou Dudu.

Nesse contexto, o diretor endossou a mobilização articulada no Brasil a partir da Coalizão Negra por Direitos, para que as Nações Unidas reconhecessem o tráfico transatlântico e a escravidão de africanos como o mais grave crime contra a humanidade – uma proposta apresentada à Assembleia Geral da ONU pela República de Gana, através de uma resolução que foi aprovada em uma votação histórica no último dia 25 de março, em Genebra. Assim como ocorreu na CND, a proposta enfrentou resistência significativa de países governados pela extrema direita, mas foi aprovada contando inclusive com o voto favorável do governo brasileiro, graças à articulação e incidência da Coalizão Negra e de outros movimentos.
Ao levar essa reivindicação a um espaço como a Comissão de Narcóticos, Dudu Ribeiro reforçou o compromisso da Iniciativa Negra em incidir para que o Brasil siga assumindo um papel ativo na construção de uma nova agenda para as políticas sobre drogas e para o enfrentamento ao racismo nos mecanismos multilaterais. Consolidando uma trajetória de dez anos de incidência internacional, a presença da organização no fórum foi mais uma vez marcada pela defesa de uma transformação radical da política de drogas, articulando justiça, raça, gênero, saúde, território e meio ambiente.
Diante de um cenário internacional atravessado por disputas geopolíticas e pelo avanço de agendas conservadoras, a atuação da sociedade civil continua sendo central para a defesa de direitos e a construção de novos paradigmas. Nesse contexto, a incidência da Iniciativa Negra segue apontando que não há mudança possível sem enfrentar o racismo, reconhecer os efeitos nefastos da guerra às drogas e avançar em agendas concretas de reparação, memória e justiça.
Reportagem por Murilo Araújo