Realizada em Salvador, a segunda edição do Peoples’ Alliance Convening reuniu representantes de organizações da América Latina, África e Ásia. Em dois dias de diálogo e articulação, o encontro buscou fortalecer a cooperação Sul-Sul e construir estratégias coletivas de atuação e incidência no cenário internacional.
No último mês de junho, a Bahia sediou um importante fórum de diálogo e cooperação entre organizações do Sul Global: a segunda edição do Peoples’ Alliance Convening (PAC), que aconteceu nos dias 26 e 27 em Salvador, capital do estado. Realizado numa parceria entre a organização colombiana Ilex Acción Jurídica e a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas, o seminário reuniu lideranças da América Latina, África e Ásia para fortalecer agendas coletivas de justiça racial, direitos humanos e luta anticolonial no campo da política internacional de drogas.


Dando continuidade à primeira edição do PAC, realizada em Bogotá, na Colômbia, em 2023, o encontro marcou uma nova etapa da articulação internacional entre as organizações participantes. Se a primeira edição esteve voltada à construção de um diagnóstico compartilhado sobre os impactos das políticas proibicionistas em diferentes territórios, em Salvador o desafio foi avançar do diálogo para a ação concreta, definindo prioridades comuns, estratégias de cooperação e agendas de incidência conjunta.
De acordo com Dudu Ribeiro, diretor executivo da Iniciativa Negra, o PAC nasce como resposta coletiva a um cenário dominado por atores do Norte Global nos debates sobre política de drogas, com espaço limitado para as comunidades afetadas pela lógica da guerra. “Tem nos inquietado a necessidade de quebrar a hegemonia de um poder que violenta nossos povos em vários continentes, em várias situações, provocando tragédias em nome da guerra às drogas. Hoje, cada vez mais, percebemos que a esperança, a saída e as melhores experiências serão protagonizadas e articuladas pelo Sul Global”, comentou o diretor.


O encontro buscou fortalecer a cooperação Sul-Sul e ampliar a capacidade de incidência das organizações participantes em fóruns e organismos internacionais que discutem direitos humanos, justiça racial e políticas sobre drogas. Ao longo dos debates, representantes do Brasil, Colômbia, Argentina, Quênia, Malásia e Indonésia compartilharam experiências e construíram estratégias coletivas para enfrentar os impactos da chamada “guerra às drogas” sobre comunidades racializadas e marginalizadas ao redor do mundo.
A metodologia do seminário privilegiou perspectivas interseccionais, antirracistas e anticoloniais, conectando discussões sobre justiça racial, violência estatal, militarização, redução de danos e os diferentes marcadores de desigualdade que atravessam os impactos das políticas sobre drogas. Para Camila Ortiz, Coordenadora de Acesso à Justiça e Política Criminal da Ilex Acción Jurídica, a potência do encontro esteve justamente na possibilidade de reconhecer a complexidade dos desafios compartilhados entre os diferentes contextos, a fim de construir respostas coletivas.


“O encontro foi uma experiência única, uma oportunidade de debater e compartilhar ideias e aprender muito com pessoas diferentes, de diferentes contextos, sempre a partir das discussões sobre política de drogas, racialização e colonialismo. Uma das coisas que mais me inquietaram foi ver como somos unidos por uma mesma problemática, apesar de sermos de regiões diferentes. Ao mesmo tempo, também me traz uma voz de alento saber que estamos juntos trabalhando pelo mesmo objetivo”, afirmou Camila.
A coordenadora de Advocacy da Iniciativa Negra, Juliana Borges, que colaborou com a metodologia desta edição do PAC, também destacou a importância do caráter cooperativo e interseccional do seminário. “Nós nos preocupamos em construir uma proposta que reconhecesse as organizações participantes como produtoras de conhecimento e protagonistas da transformação que nós queremos ver na política sobre drogas. O objetivo foi criar uma dinâmica que permitisse realmente aprofundar a nossa articulação, buscando construir uma estratégia coletiva que seja capaz de colocar na agenda global os desafios e as soluções que nascem das nossas comunidades e dos nossos territórios”.



A escolha de Salvador como sede também refletiu os valores e objetivos do PAC, reconhecendo a importância política, cultural e histórica da capital baiana, cidade de maioria negra com longa trajetória de resistência ao colonialismo e ao racismo. As atividades aconteceram no Centro Cultural Que Ladeira É Essa?, que atua na Ladeira da Preguiça, no Centro Antigo de Salvador, fortalecendo a permanência da população negra neste território historicamente ameaçado pela gentrificação. A programação também incluiu uma visita das lideranças ao território da Gamboa de Baixo, comunidade pesqueira também situada no Centro Antigo, que há décadas resiste ao mesmo processo de especulação, criminalização e militarização justificada pela “guerra às drogas”.
Após dois dias intensos de troca e trabalho, o seminário foi encerrado com uma atividade aberta ao público: uma edição mais que especial do Boteco Brasileiro de Políticas sobre Drogas. Com as participações artísticas de Shalom Adonai & Forró Luar do Sertão, Slam das Minas Bahia e Anne Heru, a festa bem brasileira foi uma noite bonita de celebração, encontro e intercâmbio entre as lideranças do Sul Global e lideranças de Salvador.



Promovendo um poderoso espaço de cooperação entre organizações da África, América Latina e Ásia, o Peoples’ Alliance Convening reafirmou o protagonismo do Sul Global na construção de novas respostas e narrativas para a política de drogas no mundo. Os compromissos assumidos no encontro contribuem para o avanço de uma agenda internacional construída a partir dos territórios e das comunidades afetadas pela guerra às drogas, com centralidade para a defesa da vida, da justiça racial e dos direitos humanos.
Reportagem por Murilo Araújo
Fotos por Heder Novaes